SAF e o doping financeiro: por que as dívidas de R$ 16 bilhões travam o avanço do futebol brasileiro
Endividamento recorde apesar de receitas crescentes
O modelo de Sociedade Anônima do Futebol, instituído em 2021, foi recebido como uma possível redenção para os clubes brasileiros. Porém, os números de 2025 mostram que os 20 maiores times do país acumulam mais de R$ 16 bilhões em dívidas, um aumento de 16% em relação ao ano anterior, conforme dados da Sports Value. Esse cenário de endividamento persistente levanta dúvidas sobre a real eficácia da mudança de modelo societário.
Falta de planejamento e regras rígidas
Durante a São Paulo Innovation Week, Elano, atual diretor de base do Santos, e Paulo André, ex-gestor no Valladolid ao lado de Ronaldo, destacaram que a simples adoção da SAF não resolve o problema central do futebol nacional: a ausência de cultura de planejamento de longo prazo. Ambos ressaltam que dirigentes, torcida e investidores cobram resultados imediatos, o que compromete decisões sustentáveis.
Paulo André apontou uma falha estrutural na lei brasileira. A expectativa inicial era atrair gestores mais qualificados, mas faltaram mecanismos de fair play financeiro com punições esportivas claras. No lugar disso, a recuperação judicial tem sido usada como ferramenta para renegociar débitos sem qualquer penalidade na tabela, funcionando como um verdadeiro doping financeiro que não existe nas principais ligas europeias.
Contraste com o exemplo do Cruzeiro e do Palmeiras
Como contraponto positivo, Paulo André citou a reestruturação vivida pelo Cruzeiro durante a Série B, quando o clube limitou seus gastos a 45 milhões de reais anuais mesmo com receitas limitadas. Após o acesso, o orçamento foi ajustado de forma responsável, permitindo crescimento sustentável. Elano, por sua vez, elogiou o Palmeiras, que mantém organização financeira e esportiva mesmo sem operar como SAF, graças ao respeito rigoroso a processos e etapas.
Inflação de custos pressiona sustentabilidade
Os dados consolidados revelam um paradoxo preocupante: enquanto a receita total do futebol brasileiro atingiu R$ 15 bilhões em 2025, com crescimento de 36% ante o ano anterior, as despesas operacionais também dispararam. A folha salarial e custos correlatos saltaram de R$ 5 bilhões para R$ 6,3 bilhões, alta de 26% que reduz margens e ameaça a saúde financeira dos clubes.
O debate deixa claro que, sem punições efetivas para inadimplência e sem respeito ao planejamento, a SAF corre o risco de apenas mascarar problemas estruturais em vez de resolvê-los.
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