Reforma tributária de 2027 impulsiona nova onda de SAFs com cautela dos clubes

A transformação tributária muda o jogo
A razão principal por trás da nova onda de SAFs não é mais o sufoco imediato com dívidas bilionárias, mas a sobrevivência fiscal a partir de janeiro de 2027. Com a reforma tributária, clubes associativos tradicionais enfrentarão carga estimada em 16% sobre a receita total, incluindo IBS, CBS e INSS. Já as SAFs mantêm o Regime de Tributação Específica do Futebol com alíquota de apenas 5%. Essa diferença de 11 pontos percentuais força as diretorias a repensar o modelo antes que os custos explodam.
O Brasil já registra mais de 117 SAFs oficiais até meados de 2025, com projeção de ultrapassar 120 em 2026. A primeira leva, marcada pelo desespero, trouxe Ronaldo ao Cruzeiro por 90% das ações, John Textor ao Botafogo por R$ 400 milhões via Eagle Football e a 777 Partners ao Vasco por cerca de R$ 700 milhões pelos 70%. Muitos contratos daquela fase deixaram brechas que hoje geram problemas, como as dificuldades enfrentadas pela 777 em outros casos.

Vasco aguarda Justiça para avançar na venda da SAF
O Vasco recorreu ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro com agravo de instrumento para suspender intervenção na SAF e autorizar a venda de 90% para o grupo Almirante Participações liderado por Marcos Lamacchia. O clube busca blindagem contra ofertas concorrentes e liberdade para contratar reforços. Enquanto isso, Guarani e Ponte Preta aparecem como possíveis candidatas na nova leva, mas ainda estão atrás do Juventus de Campinas.
A operação do Juventus, fechada em outubro de 2025 por R$ 480 milhões ao longo de dez anos pelos 90% do futebol, já entregou título da Série A2 Paulista e retorno à elite do Campeonato Paulista. Esse caso ilustra o ritmo mais maduro da atual geração: nascida sob a Nova Lei das SAFs e as regras de Fair Play Financeiro da CBF, com ênfase em governança, compliance e modelos híbridos ou minoritários.
O que isso significa para os clubes
A mudança de motivação altera completamente o perfil dos investidores procurados. Antes, qualquer capital que cobrisse dívidas era bem-vindo. Agora, as diretorias exigem parceiros com histórico sólido, contratos mais amarrados e preservação de identidade do clube. Modelos que vendem controle total perdem espaço para estruturas que mantêm influência associativa.
Essa maturidade jurídica chega em momento decisivo para o futebol brasileiro. Com mais de 120 SAFs em atividade até 2026, o formato empresarial deixa de ser exceção e passa a ser ferramenta de sobrevivência tributária. Clubes que demorarem a migrar correm risco de perder competitividade financeira, enquanto os que acertarem a transição ganham fôlego para brigar por vagas em competições continentais e melhorar a gestão de elenco.
O impacto prático aparece na mesa de negociações. Investidores agora enfrentam due diligence mais rigorosa e cláusulas que protegem o patrimônio histórico. O Vasco, por exemplo, tenta equilibrar a entrada de capital com a manutenção de autonomia operacional. Já o sucesso inicial do Juventus mostra que planejamento tributário combinado com boa gestão em campo pode acelerar resultados.
No fundo, a nova onda consolida uma era de maior profissionalismo. A reforma de 2027 não perdoa quem ficar no modelo antigo. Quem migrar com calma e contratos bem estruturados terá vantagem competitiva duradoura. Quem repetir os erros da primeira leva pode enfrentar novos colapsos de investidores. O futebol brasileiro, portanto, assiste a uma seleção natural: sobrevivem os clubes que souberem usar a SAF como instrumento de longo prazo, não apenas como salvamento emergencial.
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